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06/06/2020

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História | Relatos da febre espanhola em Barbacena no princípio do século XX

Doutoranda em História pela UFJF, a professora Roseli dos Santos compila parte de sua tese e traça um retrato de como foi a Febre Espanhola no início do século passado em Barbacena. SAIBA +

001 1918 

A Doutoranda em História, professora Roseli dos Santos compilou parte de sua tese nos trechos em que conta como Barbacena recebeu a Febre Espanhola nos anos de 1918-1919. O BarbacenaMais traz como uma curiosidade para seus leitores este recorte que nos mostra um pouco do que se passou naquela ocasião.

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A Gripe Espanhola em Barbacena e no Quilombo Candendê

Por Roseli dos Santos 

... A partir de 1918, o termo Quendendê é trocado por Candendê nos registros documentais. A mudança coincide com o tumulto causado pela gripe espanhola que afeta a região, o que pode ter favorecido a alteração passar despercebida.

A gripe espanhola surgiu no final da Primeira Guerra Mundial. Por agosto ou setembro de 1918, chegou à capital do Brasil, Rio de Janeiro.

Foi noticiada em jornais, em pequenas manchetes que falavam de um estranho mal que acometera a Europa e a África e cujo diagnóstico ainda era incerto. Em junho do referido ano, os jornais de Londres haviam afirmado se tratar de uma “influenza” que recebera a alcunha de gripe espanhola, em razão desse país não fazer segredo sobre os casos da doença em suas terras e pela indignação dos ingleses devida à neutralidade do país ibérico em relação ao conflito mundial.1

Para Goulart, “[...] enquanto na Europa, a espanhola se disseminava, no Rio de Janeiro, [...] as notícias sobre o mal reinante eram ignoradas ou tratadas com descaso e em tom pilhérico, até mesmo [...] pseudocientífico.”2

A notícia do perigo ganhara audiência, quando componentes da missão médica brasileira que se encontravam a caminho de Dakar, a bordo do navio La Plata, foram surpreendidos com a morte de 156 soldados e oficiais. A tripulação sobrevivente enviou um alerta ao Brasil em 22 de setembro. 

Contudo, nada foi feito pelos governantes para evitar a entrada da “influenza” no país. Nenhuma estratégia de combate à moléstia foi realizada, e o inspetor sanitário do Rio, Jayme Silvado, foi acusado de deixar atracar no porto, em outubro, o navio Demerara que, possivelmente, teria sido o foco de entrada do vírus no país. Apesar das especulações contra o navio, registros da época já falavam da chegada de gripados nos portos brasileiros, tempos antes.3

Enfim, ao entrar no Brasil, as indagações do que realmente era o causador da moléstia começaram a surgir. Alguns sanitaristas imaginavam tratar-se de cólera ou peste bulbônica. O contágio era rápido, com período curto de incubação e alto grau de letalidade. De simples zoeira no ouvido, a doença se desenvolvia para perturbações nos nervos cardíacos, infecções nos intestinos, pulmões, meninges, levando a vítima, em poucas horas, a sufocações, diarreias, coma e morte.

Ainda são poucos os trabalhos que trazem, como foco, o estudo sobre a gripe espanhola em Minas Gerais. Estudiosos, como Anny Silveira, afirmam que o terrível morbo desembarcou em Belo Horizonte, em 7 de outubro de 1918, com um oficial do exército acompanhado de sua família, vindo do Rio de Janeiro. Segundo Anny Silveira, a capital mineira acompanhava os fatos com um estado de ânimo contraditório. Construída obedecendo as normas sanitárias vigentes na época, Belo Horizonte se achava imune à manifestação da epidemia em sua fase mais letal. Apesar disso, três dias depois da chegada do oficial, começaram os registros de contágios e de mortes na cidade planejada. 4

Como se viu, não foi só a capital de Minas que registrou o caos advindo da moléstia. Infelizmente, as notícias de contágios locais chegaram aos registros do Candendê e aos jornais da cidade de Barbacena. Segundo texto intitulado “Sublinhas” do Jornal Cidade de Barbacena, datado de 3 de outubro de 1918,

(...) não há razão para enxergarmos nessa (sic) pandemia uma calamidade comparável ao Cholera Morbus

ou à Peste Levantina [...] não há razão para admitirmos que ela venha (sic) produzir em terra, [...],

a hecatombe que determinou a bordo dos nossos navios de guerra. 5

Pouco tempo se passou, e o responsável pela manchete anterior reconheceu o erro e admitiu a pouca informação que possuía sobre os danos da Influenza. Num texto em destaque “A Hespanhola” (sic), o redator faz críticas ao setor público sobre as ações de combate à epidemia e afirma que, pelo movimento do Registro Civil, a gripe já estava fazendo vítimas em Barbacena. Todavia, estas, quase todas, eram de classe pobre em consequência da falta de recursos, do escasseamento de enfermeiras e da falta de higiene necessária ao combate da moléstia. O jornal afirma ainda que o Dr. Carlos Silva Fortes  “esforçado presidente da Câmara”, habilitou fiscais, agentes, a “Pharmácia Andrade & Andrade” e o médico Dr. Oscar Pimentel para fornecerem aos indigentes comprovados, assistência médica e gêneros de que carecessem, como a alimentação exigida pelo regimento dietético e o aviamento das receitas prescritas. 6

A fazenda da Borda do Campo, na ocasião, passou a distribuir, por intermédio do Sr. Onofre de Campos, de 20 a 25 litros de leite, o que foi seguido por outros fazendeiros e comerciantes. Além do leite, forneceram alimentos e doaram dinheiro. Com o caos instaurado na cidade, a imprensa se tornou fiscal das boas e das más ações da população e das instituições, a ponto de certos habitantes da região pedirem uma brechinha nos noticiários, buscando justificar suas atitudes. Esse foi o caso do Dr. José Hygino da Silveira, ao explicar sua atitude feita, no dia 14 de novembro. Ao regressar da Colônia dos Alienados, aonde fora prestar serviços médicos, um rapaz que estava à frente da empresa pecuária, solicitou-lhe que examinasse alguns empregados enfermos dessa empresa. Ele atendeu-lhe o pedido, no entanto recusou-se a dar receituário aos doentes, por entender que estes não eram indigentes, logo não precisavam da assistência pública. 7

A Santa Casa de Misericórdia de Barbacena, instituição de caridade, também teve seu momento de “glória” nas páginas do jornal. Ao ser questionado, o provedor Sr. José Máximo de Magalhães lamentou não poder atender à solicitação do presidente da Câmara, Dr. Carlos da Silva Fortes e explicou que o regimento interno da Instituição proíbe o recolhimento de “[...] gripados, por ser moléstia infectocontagiosa, e que os médicos assistentes se acham doentes, portanto (sic), a Santa Casa somente está preparada para conservar os doentes que se acham atualmente em tratamento de outras moléstias.” 8

Entre ajudas e recusas de atendimento, a “Hespanhola”, em menos de um mês, era descrita como “causa mortis” de mais de 130 casos em Barbacena. Contudo, em 24 de novembro, o redator do jornal Cidade de Barbacena afirmava com entusiasmo que a horrível influenza estava em declínio. Porém faz uma ressalva, abordando a aflição do Juiz de Paz de Ilhéus, Sr. Manoel José Campos, em razão da escassez de médicos, no local, e da dificuldade de enviar um facultativo ao referido distrito, a fim de fazer os  necessários medicamentos. Na ocasião, tudo o que fosse possível foi feito para combater a epidemia que “grassava” em ilhéus.9

O primeiro registro de gripe encontrado em Candendê, distrito de São José de Ilhéus, Termo de Barbacena, foi em 29 de novembro de 1918, e contrariava a expectativa do redator do jornal Cidade de Barbacena sobre o declínio da influenza. Segundo o Escrivão de Paz Interino e Oficial de Registro José Joaquim Pereira, a pedido de João Francisco, lavrador e residente no distrito, registrou-se o falecimento da menina Umbelina, de dez anos, ocorrido por volta das 5 h, tendo a gripe como causa mortis. Atestaram-na Simião José da Silva e Francisco Fernandes Vieira.10

Além da pequena Umbelina, outras mortes foram registradas nos grotões da nobre e leal “Cidade das Rosas”. 11 Joaquim Teixeira, carpinteiro, casado, residente no distrito de Ilhéus, declarou que aos 30 de novembro de 1918, no Candendê, lá pelas dez horas da noite, faleceu a menina Joaquina, filha de João Francisco e Maria Margarida. A criança, com apenas um ano e meio de idade, “sucumbira à força da gripe”.12 O mês natalino também entrou com mortes causadas pela misteriosa. Aos 12 dias do mês de dezembro, o rapaz Antônio Francisco Cassiano, filho de Anna Thereza de Jesus e Francisco Antônio Luiz da Costa, falece no auge de seus vinte anos, com os mesmos sintomas dos demais finados.

Num espaço pequeno, sem assistência médica adequada, pautada na economia familiar, a febre deve ter desolado e assustado sua população. A Febre Espanhola, além de devastar física e emocionalmente a população local, provavelmente, alterou as familiares relações de trabalho e as prestações de serviços dos moradores do Candendê aos fazendeiros locais.

As mortes continuaram na localidade até 1919, como relatado por Elias Antônio Quintiliano ao escrivão. Ele afirmou que no dia 4 de janeiro, a gripe ceifou a vida de Francisco Antônio Luiz, aos 55 anos de idade, filho de Antônio Francisco e Anna de Jesus. E que Francisco Antônio deixou duas filhas: Francillina e Maria Francisca13No total, a “Hespanhola” levou a óbito cinco moradores, sem escolher idade e sexo.

Ela também chegou às portas dos fazendeiros. Em 22 de dezembro, Manoel José Campos informa ao escrivão que, em sua Fazenda Três Pontes, no distrito de Ilhéus, faleceu de gripe espanhola, Luiz Gonzaga com 80 anos de idade. O registro não classifica a relação do “velho Luiz Gonzaga” com Manoel Campos.14  É fato que a mobilidade e o deslocamento de moradores para a cidade e fazendas facilitavam o contágio dos habitantes locais. Infelizmente, como ressaltam os jornais da cidade de Barbacena e os estudos sobre a moléstia no Brasil, as pessoas, com menos recursos financeiros, alimentares e higiênicos e com maior escassez ou dificuldade de acesso aos serviços públicos, compunham a estatística de óbitos registrados.

Neste emaranhado de fatos narrados, surge, em meio ao caos da “Hespanhola”, outro personagem central na formação do quilombo Candendê: Elias Quintiliano de Araújo.

 


1 GOULART, A. da C.: Revisitando a espanhola: a gripe pandêmica de 1918 no Rio de Janeiro. História, Ciências, Saúde – Manguinhos. v. 12, nº 1, p. 101-42, jan.-abr. 2005.

2 GOULART, A. da C.: Revisitando a espanhola; p. 102.

3 GOULART, A. da C.: Revisitando a espanhola, p. 

4 A Influenza Espanhola e a cidade planejada – Belo Horizonte, 1918.

5 ACAMPHAS. Jornal da Cidade de Barbacena, 1918, num.1446.

6 ACAMPHAS. Jornal da Cidade de Barbacena, 1918, num.1455.

7 ACAMPHAS. Jornal da Cidade de Barbacena, 1918, num.1456.

8 ACAMPHAS. Jornal da Cidade de Barbacena, 1918, num.1455.

9 ACAMPHAS. Jornal da Cidade de Barbacena, 1918, num.1457.

10 Cartório de Registro Civil das Pessoas Naturais e Notas de Padre Brito. Livro de Registro de óbito, nº 2, 1898 a 1925, fl. 128.

11 Termo por que ficou conhecida a cidade de Barbacena por seus plantios de rosas e flores, exportadas pelo mundo afora.

12 Cartório de Registro Civil das Pessoas Naturais e Notas de Padre Brito. Livro de Registro de Óbito, nº 2, 1898 a 1925, fl. 131.c

13 Cartório de Registro Civil das Pessoas Naturais e Notas de Padre Brito. Livro de Registro de Óbito, nº 2, 1898 a 1925, fls. 148v e 149.

14 Cartório de Registro Civil das Pessoas Naturais e Notas de Padre Brito. Livro de Registro de Óbito, nº 2, de 1898 a 1925, fls. 150 e 150v.1


Roseli dos Santos é Doutoranda de História da UFJF

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