Soltando o verbo DOER, com a escritora Lucimar Zanzoni

Contemporânea, artista sem pretensão, moderna, desafiadora, criativa, meiga e genial. Lucimar Zanzoni é convidada do BarbacenaMais e está publicando suas séries de crônicas aos domingos aqui. Um pouco de leveza e literatura para dias pesados e instigantes. Hoje é dia de falar sobre DOER  ;-)

SOLTANDO O VERBO DOER

Por Lucimar Zanzoni*

Doer
Dói em mim saber, que algumas notícias tristes saem nos jornais todos os dias. E uma delas é sobre a violência contra mulheres, que vem ganhando em número e em horror a cada dia. Só em Minas Gerais foram registrados, de maio a agosto deste ano, 47442 casos. Destes, a maioria (38%) se refere à violência física, 37% são casos de violência psicológica e o restante são ocorrências de violência moral, sexual, patrimonial e de outros tipos.
Dói em mim saber, que as vítimas são 61% negras, 70% entre 18 e 44 anos e 51% não concluíram o ensino médio. Estes dados só escancaram a vulnerabilidade que relaciona raça com condição social precária. 
Dói em mim saber, que o machismo ainda domina o pensamento masculino e faz com que o homem enxergue a mulher sempre em condição inferior, inapta para construir sua própria trajetória, sob comando e sujeita às vontades masculinas. Não podendo, em espécie alguma, desejar, sonhar, empreender o que não for aprovado pelo companheiro, irmão, pai ou até filho.
Dói em mim saber, que em função da COVID19, as mulheres estão ainda mais sujeitas ao risco de morte, tanto pela doença, pela falta de atendimento, pela truculência inapropriada dos órgãos de segurança ou pelos excessos de álcool e drogas.
Dói em mim saber, que muitas se calam e não denunciam seus algozes, por medo, ou até por acharem que se suas mães e irmãs foram vítimas de violência, por que seria diferente com elas? Naturalizam o que não é natural, aceitam o que é aviltante.
Dói em mim saber, que muitas meninas são violadas em ambiente doméstico, quase sempre por pessoas de seu próprio conhecimento, como primos, tios, irmãos, avós, pais. E que, sob ameaça, o silêncio impera e permite a continuidade dos atos ilícitos e incestuosos.
Dói em mim saber, que muitas vítimas fatais estavam recomeçando suas vidas longe de seus agressores, que não permitiram que elas levassem uma nova vida sem eles. Aquele que foi deixado prá trás não consegue conviver com a liberdade e a felicidade da ex.
Dói em mim saber, que o tempo entre agressões diminui à medida que casos se repetem. Geralmente entre a primeira e a segunda agressão, o intervalo é de 361 dias; entre a segunda e a terceira, é de 258 dias, mas a partir da sexta agressão, o prazo passa ser em média 138 dias. E tudo se repete por absoluta certeza da impunidade pelos autores. Razão pela qual é preciso denunciar na primeira vez.
Dói em mim saber, que a Lei Maria da Penha, que estipula punição aos atos de violência doméstica contra a mulher, só foi decretada e sancionada em 2006 e que antes disso quantos crimes desta natureza ficaram impunes.
Dói em mim saber, que alguém que me lê, possa estar em situação ultrajante, sob qualquer aspecto, e que por vergonha, timidez ou temor, continua neste caminho solitária e infeliz.
Dói em mim saber...
(Lucimar Zanzoni)

A série brasileira “Bom Dia, Verônica”, na Netflix desde primeiro de outubro, conta histórias que envolvem a violência doméstica contra a mulher em todas as suas formas.
No HBOGO, a série “Big little lies” revela a violência doméstica no meio de uma trama complexa e densa.
Vários filmes antigos tratam desta temática difícil, como “Preciosa”, “Dormindo com o inimigo”, “A cor púrpura”. Nunca é demais falar sobre o assunto.

E no mais, em caso de qualquer problema desta natureza, disque 180.

Faixa bônus: a música Maria de Vila Matilde com Elza Soares – HTTPS://youtu.be/-m393EagdSk

Foto de instalação de #lauraadeljohnson, @myartmagazine

#soltandooverbo #doer #levezasdalu #violenciacontramulher #violenciadomestica #bomdiaveronica #netflixbrasil #biglittlelies #hbogo #elzasoares #mariadavilamatilde #LeiMariadaPenha

#primevideo 

*Lucimar Zanzoni

O BarbacenaMais tem a honra e se orgulha de convidar para escrever nas páginas de um periódico barbacenense a autora Lucimar Zanzoni, que já é sucesso nas redes sociais e vem encantando adultos e jovens com sua literatura moderna e criativa.

Lucima Zanzoni é apaixonada por números, palavras e pessoas. Bancária aposentada, mãe por natureza e prá sempre. Procura espalhar nas redes sociais suas percepções e intuições sobre a vida de forma leve. Você a encontra também no Facebook Lucimar Zanzoni, no Instagram @LucimarZanzoni ou buscando por #levezasdalu. Seu email para correspondência é Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

O texto acima faz parte da série Soltando o Verbo, onde Lucimar reflete, neste período de pandemia, sobre um verbo relacionado com o assunto e com o momento. 

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