Para o Penninha | 'Adeus ao último beat'

O escritor e poeta Jairo Fará relembra episódios de sua amizade com Luiz Penna

ADEUS AO ÚLTIMO BEAT

Jairo Fará

Tive o privilégio de conviver com Luiz Penna, que nos deixou, no dia 9, com uma
sensação de que fomos um pouco embora também. Ser amigo do Penna não era uma coisa
qualquer. Era vivenciar uma explosão contínua. Era a inquietude na velocidade de 300 ideias
por segundo. O artista-intelectual beat, que tinha a liberdade como princípio condutor.

Só uma vez, em 30 anos de amizade, vi o Penna reclamar. Ele era um otimista
incansável. Como era órfão, passou apertos e mais apertos na juventude. Dormindo em
escritórios, sem dinheiro para se alimentar direito, contando com o apoio dos amigos. Mas ao
encontrá-lo estava sempre entusiasmado com seus inúmeros projetos revolucionários. Dizia
que estava tudo ótimo, que agora iria fazer um grande projeto cultural, etc.

Foi ele que me apresentou Bukowsky e os escritores beats. Tínhamos nossas
discussões literárias filosóficas, com ofensas amigas de lado a lado, mas tudo era como uma
grande brincadeira de dois amigos bêbados.

Sua vida era uma aula de que o mundo é uma festa inteligente e que não podemos
perder tempo com problemas. Indiferente ao momento ou a situação financeira, a experiência
da vida tinha que ser intensa.
Lembro quando viajamos juntos a Ibitipoca. O Penna dizia que era um treinamento
beatnik. Encontramos em Juiz de Fora e pegamos um ônibus para Lima Duarte. Chegamos lá e
fomos aos bares, conhecemos muita gente: da juventude burguesa aos trabalhadores rurais.

No último bar aberto, conversávamos com pessoas simples sobre os temas mais eruditos
possíveis e as pessoas nos olhavam com admiração. Talvez por não estarem acostumadas com
figuras tão malucas.

Até que todos os bares se fecharam e uma longa noite passamos bebendo em frente à
igreja principal. No outro dia, às 6 da manhã, pegamos o caminhão de leite que subia a serra.

As latas de leite iam batendo para piorar a ressaca. Passamos uns 10 dias em Ibitipoca. O
Penna tinha levado quase que somente o dinheiro da passagem de ônibus e não tinha como
pagar a pousada, que também servia nossas refeições. Na hora de ir embora, ele propôs
escrever uma crônica como forma de pagamento e publicar num jornal de Barbacena. A dona
da pousada, por sorte, nem falou nada, só mexeu a cabeça dizendo "sim". Tudo dava certo,
afinal, os anjos da guarda das pessoas livres são generosos.

Não sei como ficou essa crônica, mas lembro que numa caminhada às cachoeiras ele
disse que iria começar seu texto com parte de uma música do Lulu Santos: "Garota, eu vou pra
Califórnia, viver a vida sobre as ondas..."; Um bom tema para o Penna em sua nova
caminhada...


Imprimir  

Tudo o que aconteceu hoje, diretamente no seu e-mail

Receba nossas noticias em seu e-mail: