Crônica: Declínio humano, da autora Leandra Vital Souza

A publicação das crônicas do Laboratório de Escrita, do Instituto Curupira, sob orientação do professor Delton Mendes Francelino, é uma parceria pela valorização da escrita e da leitura em parceria com o BarbacenaMais. LEIA!!!

Crônica por Leandra Vital Souza [1]

Benedito participou do experimento da pílula da personalidade. A proposta do experimento é que qualquer pessoa possa ir a uma farmácia e comprar o remédio correspondente à personalidade que gostaria de ter: mais introspecção? Quem sabe alguém com mais atitude? Ou, talvez, empreendedor, aventureiro, enfim, múltiplas possibilidades. Obviamente isso criou muitas polêmicas na época, já  que algumas pessoas queriam consumi-las por acharem uma solução rápida e eficaz; e outras que achavam um absurdo a simplificação do ser humano. Muitos debates. O Conselho de Psicologia lançou até uma nota de repúdio, declarando a comercialização da pílula como um ato criminoso e o Sistema Jurídico deu início a uma investigação sobre como se deu esse experimento. O experimento foi encerrado, mas as consequências para Benedito, não.

Desde que nosso amigo, Bené, encerrou sua participação nesse projeto, deixou de tomar as pílulas. Foram anos as tomando. Em cada período de sua vida manifestava uma personalidade e tinha uma vivência diferente: era como se fosse um ator, com coleções de personagens.  Essa escolha de participar da experiência foi por sentir que sua biografia estava comum demais, sem grandes emoções. Entretanto, constatou a grande consequência dessa aventura: a perca de sua identidade, já que não sabia quem foi e não via futuro para si. E o pior: sua vida estava mais sem graça que antes. O máximo que Benedito consegue fazer é ir até a linda varanda do apartamento, deitar na rede marrom-escura pendurada, tomar sol e imaginar qual é a rotina das outras pessoas que passam do lado de fora. Sente uma paralização de seus sentimentos, ações e pensamentos. A única emoção concreta que tem, é o medo de ser preso.

Hoje, Bené acordou e considerou ser um dia mais atípico que os outros. Além de ratificar o esvaziamento do seu ser, sentiu uma dor súbita no peito, falta de ar, dor no estômago, raiva e muita tristeza. Inesperadamente desmoronou no chão, sentindo-se muito mal. Por sorte, João chegou no apartamento, gritando por Bené:

-Tem um oficial de Justiça querendo falar com você.

Ao entrar na cozinha, percebe que Benedito está desvanecido no chão. Leva-o para o hospital. Lá descobre que seu colega teve um infarto: um infarto provocado pela “Síndrome do coração partido” e está em coma. João, mesmo apreensivo, não consegue deixar de fazer uma colocação:

-Até para ter uma doença esse homem sabe surpreender.

Tão logo João pensa isso, nosso amigo desperta e percebe que está em um lugar que não consegue descrever, visualiza várias imagens de sua vida sucedendo em sua frente. Conclui que:

- Ou morri, após ter vivido uma vida miserável; ou estou podendo constatar essa inutilidade de minha existência, fazendo a tal viagem dentro de mim mesmo.

Deseja que seja a última opção. Apesar dos pesares, embora não gostasse da vida, ou das vidas, que estava tendo, não almejava falecer naquele dia.  


[1] aluna do projeto Laboratório de Escrita, do Instituto Curupira, sob orientação do professor Delton Mendes Francelino


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