Laboratório de Escrita | Crônica: Uma última chance

O BarbacenaMais publica mais uma crônica escrita por um dos alunos do Laboratório de Escrita do Instituto Curupira. O autor desta edição é Johnny Oliveira Dias. Confira...

Autor: Johnny Oliveira Dias*
 

Uma nova chance
 

Depois de um dia inteiro, debruçado sobre livros e cópias de processos, era natural que ele estivesse cansado. O telefone tocara a curtos intervalos, e mesmo não sendo ele a atendê-lo, o volume, no final da tarde, nunca parecia baixo o suficiente. Conforme a rotina do escritório as pessoas o procuravam, levando-lhe as decepções, os prejuízos, as próprias vidas e, dentro de suas condições, ele habitualmente assumia a tarefa de ampará-las. Ele poderia atender metade da cidade em um único dia, que ainda assim haveria algum entusiasmo ao mandar a secretária embora e encostar a porta para que Elias, ao sair, trancasse-a. Mas não naquele início de noite. Ele ainda se perguntava como encararia a esposa outra vez.

Embora precisasse corrigir as falhas do programa que controlava as câmeras de segurança da empresa, ela, no conforto de sua casa, não conseguira se concentrar por algo mais que três minutos para se dedicar ao trabalho. Após deixar a filha na escola, passara a tarde ansiosa pela volta do marido ao lar que construíram ao longo de dez anos, mas que na última semana abrigara suas lágrimas e súplicas, orações e juras de amor ao telefone, até que ele, finalmente, concedera-lhe seu perdão. A felicidade que sentia não era algo que coubesse no corpo fragilizado de uma mulher, há dias inapetente. Externavase, amiúde, em novas lágrimas, nas diferentes medidas do sorriso constante, ou nas palavras que saltavam de sua boca sem a necessidade de uma interlocução. Nada importava além do fato de que ela podia esperar por ele outra vez.

O carro levava-o pela cidade com certa displicência, ao som harmonioso de voz e violão da MPB de décadas atrás. Do lado de fora, pouco a pouco a noite condensava-se e as pessoas enchiam ruas e calçadas. Tudo tão comum naquele horário, apenas ele não interagia com a rotina. Faltava-lhe aquela ânsia de estar no ambiente familiar, de ouvir a voz da filha, de tomar um bom banho e descansar o corpo no conforto do sofá da sala na hora do jornal. Em seu íntimo estava mal. Sentia-se envergonhado diante de tudo, da cama sobre a qual dormia, da privada em que dava conta de suas necessidades fisiológicas; e de todos, do pai, da irmã, dos amigos. Como ele lamentava ter levado a traição da mulher para fora de casa! Fora algo nojento, impulsivo, tão súbito, quanto a ligação que, agora, era evidenciada pelo sistema de conectividade do carro. Era a esposa. Ele não queria atender – tinha a desculpa de estar dirigindo –, mas, e se tivesse acontecido alguma coisa com sua filha? Ele não viu escolha, apertou o botão do lado direito do volante e lançou sua voz a ela:

_ Alô?

_ Oi! – respondeu ela nada surpresa com o tom amargo na voz do marido.

_ Você está dirigindo?

_ Sim, estou.

_ Já está voltando?

_ Só preciso pegar uma documentação para compor o processo de um cliente.

_ Ah, sim. Que bom!

_ Você... precisa de alguma coisa? – pergunta ele, tentando suavizar a postura indelicada com a qual parecia tratar a conversa. _ Algo do mercado...

_ Não, querido! Eu já fiz as compras da semana.

_ Ótimo! Por alguns segundos os telefones emudeceram, ambos esperavam algo mais antes de desligar. Ele contraiu os lábios. Ela mordeu as costas da mão. O silêncio perdurou entre dúvidas e suposições, até uma buzina soar entre eles. Ela resolveu, por bem, encerrar:

_ Estou te esperando, então.

_ Não demoro.

_ OK. Te amo! – A voz dela soou trêmula.

E ele notou, assim como notou que desta vez ela falava a verdade.

_ Também – disse ele antes de desligar.

A euforia lhe fez esquecer o celular sobre o sofá. Ela deu voltas e mais voltas pelo apartamento, parou em todas as janelas que davam para a rua, respirando o ar fresco da noite que chegara e conferiu os detalhes de cada cômodo para que, ao marido, nada desagradasse. O elegante vaso de Antúrio decorando o escritório; os brinquedos organizados no quarto da filha; a colcha estendida impecavelmente na cama do casal; as pequenas estátuas de bronze limpas e bem posicionadas sobre o aparador da sala; o brilho do banheiro, que rescindia ao desinfetante de eucalipto; e, na bancada da cozinha, à sua espera, os alimentos que comprara para preparar o jantar. `Ele ainda me ama`, era tudo que ela conseguia pensar.

Ele não tinha dúvidas de que a amava. Seu coração dizia-lhe isso. Por outro lado sua mente cobrava-lhe o peso das calças, uma postura mais enérgica e, sobretudo, amor próprio. Nisso, à luz dos postes que se revezavam dentro do carro criando um ambiente que oscilava entre a luz e a escuridão, ele estabelecia um conflito com a sua consciência. Se essa análise de suas fraquezas o tivesse acometido antes, a situação não teria chegado a tal ponto. Ele provavelmente teria trabalhado menos, dormido mais, sua alimentação não seria tão negligenciada e, talvez, praticasse algum esporte. Teria dado mais atenção à mulher e à filha – não se recordava da última vez em que entrara em casa curioso do dia de ambas – e não estaria tão repulsivamente magro, criando na mulher um perceptível incômodo ao tê-lo na cama, o que o obrigou a evitar o sexo nos últimos meses juntos.

Ela não tinha dúvidas da própria culpa. O marido andava trabalhando demais e ela nunca se preocupou em lhe perguntar sobre a rotina do escritório, ou dizer-lhe que era feliz com o que já haviam conquistado juntos. Ao invés disso viu-o afundar cada vez mais em compromissos e fantasiou na relação dos dois uma influência negativa de Elias, o amigo do marido que levava uma vida dupla entre os planos do segundo casamento e as casas de prostituição. O sexo entre eles esfriara; as cólicas, surgidas de repente, fracas, porém constantes, deixavam-na cada vez mais desconfortável, o que a ajudou a ignorar inicialmente a abstinência de ambos; entretanto, algumas semanas depois, ela percebeu que as relações só advinham da vontade e atitude dela. Aquilo nunca tinha acontecido. Não era normal. E quando foi pega de surpresa pelo desejo de outro homem, ela se sentiu isenta de qualquer culpa dada a presumida infidelidade do marido.

A garagem do prédio foi se iluminando à medida que o carro afundava em seu interior até encontrar a vaga do apartamento 402. Com o veículo já desligado, ele permaneceu um tempo, quase imóvel, em seu interior. As mãos suavam, o coração batia mais acelerado que o normal e, por muito pouco, não ofegava. O olhar ligeiro sobre os ponteiros do relógio só lhe permitiu ver que ainda não eram sete horas. Olhou com pesar a pasta e o envelope pardo abarrotado de documentos sobre o banco do carona e resolveu colocá-los no porta-malas. O alarme do carro soou agudo ao travar as portas, e ele se dirigiu ao elevador levando carteira, celular e o blazer azul-marinho na mesma cor da calça. No calor do elevador ele tirou a gravata e a pôs em um dos bolsos do blazer, que vinha dependurado sobre o antebraço direito. Quando a porta do elevador escancarou-se no quarto andar, ele saiu lentamente. Seguiu uns quinze passos adiante no corredor que o recepcionara e parou novamente. Ali estava ele diante do apartamento 402 sem saber o que fazer.

Com o salmão temperado, um banho era o que lhe faltava para recepcionar o marido. Ela se valeu de uma touca para preservar o cabelo – já o havia lavado pela manhã – e usufruiu de toda gama de sabonetes e do gel de banho que guardava no armário do banheiro. Saiu de roupão. No quarto hidratou a pele com cremes específicos para cada região do corpo e cobriu-se com um vestido azul florido, de alças finas, caindo-lhe solto até os joelhos. Os chinelos rosados vieram com o toque de simplicidade, combinando com as unhas que não tivera tempo de pintar, apenas as lixara. Diante do espelho, sentiuse vinte anos mais nova, como se voltasse à semana de seu baile de debutante. Aquela beleza natural, desprovida de maquiagem, o cabelo castanho ondulado que o marido tanto idolatrava. Há muito tempo ela não se vestia assim, com tamanho esmero, apenas para ficar ao lado dele. Ela estava pronta para ele. Então ouviu as batidas à porta. O coração de imediato acelerou, e ela gritou:

– Pode entrar!

A dois passos da porta ele permaneceu por algum tempo. Teve vontade de ir embora; porém sabia das consequências de desistir ali; continuaria a se sentir pequeno e incapaz de expressar qualquer reação aos golpes da vida. Corria o risco, ainda, de não se perdoar pela chance perdida. E se mesmo assim eu não for capaz de esquecer a traição, ele se perguntava. Não havia como saber a menos que entrasse. Então, de súbito, ele avançou sobre a fechadura. Por sorte a mente clareou antes que pudesse girá-la, e lhe sugeriu bater antes.

– Pode entrar! – escutou ele a voz erguida, porém delicada, vindo de dentro.

Ele abriu a porta. O apartamento era pequeno, com poucos móveis, incrivelmente limpo. A sala abrigava um conjunto de sofá, TV, mesa de centro e um aparador. A cozinha estava conjugada à esquerda e de frente para porta a suíte, de onde ela surgiu.

– É você o amigo do Elias? – indagou a residente, a voz tanto delicada quanto antes. Devia ter uns dez anos a menos que ele. Morena de corpo escultural, estatura média e o rosto alinhado por uma camada grossa de base. Usava minissaia preta, espartilho branco e salto absurdamente alto para a ocasião. Não fazia o seu tipo, o que ele achou ótimo.

– Sim, sou eu – disse ele, segurando o blazer à frente do corpo. O olhar oscilante de quem temia ser desrespeitoso.

– Pode vir aqui.

Ela se virou de volta à suíte, e ele a seguiu. Antes de adentrar o quarto olhou o relógio e pensou na filha, que após a aula de canto, deveria estar chegando em casa naquele momento acompanhada da vizinha, a ex-mulher de Elias.


*Orientado pelo professor Delton Mendes, via Projeto Laboratório de Escrita, do Instituto Curupira.


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