A idiotice e a fratura das perspectivas de sustentabilidade

Artigo do ambientalista Delton Mendes questiona sobre o que foi feito com aquela prática que nos permitiu os primeiros passos rumo à socialização, de sentarmo-nos em círculo e conversar sobre os mistérios do planeta, da existência e do universo. LEIA. PENSE!

Por Delton Mendes

Pelas ruas, as pessoas movem-se rápido, impelidas pelos compromissos sociais que possuem; organizadas e inseridas em estruturas sócio culturais construídas muito antes delas nascerem. O espaço das pessoas, na locomoção de seus corpos, é o passeio, limitado, estreito e na maioria das vezes em péssimo estado. As ruas do espaço urbano são para os automóveis, para o ir e vir mais rápido, necessário e produtivo. Crianças que brincam e correm, naturalmente, nesses ambientes “asfálticos” são consideradas desocupadas e desprovidas de educação. “Perdem” seus tempos brincando na rua, ao invés de estarem, eventualmente, “estudando” entre os muros das escolas ou entre as paredes da própria casa.

Essa é uma realidade típica da maior parte da sociedade contemporânea que habita o planeta. A correria do dia-a-dia, os compromissos criados e subordinados a estruturas sociais e culturais não raras vezes antigas, alienam-nos de fatores fundamentais e essenciais para qualquer forma de existência coletiva. Divide-nos em blocos de percepção, pequenos nichos de vida, calcados em conceitos chavões de felicidade, alegria, saúde, bem estar, ética e moral.

Até que ponto se é idiota? Ou, melhor: qual o nível da sua, ou da nossa idiotice e o que ela desencadeia? Para responder, é preciso retornar à etimologia da palavra idiota, que remonta à Grécia, quando idiotes era uma característica daqueles indivíduos que pensavam e agiam de olho em seus “próprios umbigos”. Pessoas que acreditavam que a vida social e seus conjuntos indissociáveis de relações não eram mais importantes que seu bem estar particular. Tudo o que era público e político lhes era desinteressante.

Embora tenha chegado até nós pelo latim, é interessante perceber como ainda hoje é fácil denotar a idiotice na maneira como consideramos a existência: afastamos-nos do bem estar coletivo, compreendido aqui como não somente a felicidade e alegria, bem estar e saúde friamente analisados do ponto de partida exclusivo humano. Tornamo-nos idiotas num nível muito maior: o ambiental e ecossistêmico.

Há cerca de 10.000 anos a humanidade não era necessariamente como é hoje. Nosso âmbito de pensamento sobre o mundo era diferente. Era impossível dissociar o pensamento social e coletivo da lógica ambiental, da natureza e dos recursos fundamentais que garantiam a existência humana. Hoje, lançados a verdadeiros guetos de escassa construção e empoderamento de valores éticos e morais ecológicos, é praxe não observarmos a natureza em suas singularidades.

Não fazermos ideia das principais características das estações do ano. É raro as pessoas observarem a água que lhes sai facilmente ao abrir as torneiras e ter algum sentimento de agradecimento, ou se perguntarem sobre como a carne que lhes chegou à mesa é fruto do sofrimento inimaginável de um animal. É igualmente rara, hoje, aquela prática que nos permitiu os primeiros passos rumo à socialização, de sentarmo-nos em círculo e conversar sobre os mistérios do planeta, da existência e do universo.

A idiotice corrompe nossos valores éticos. Constrói muitos dos pressupostos morais da humanidade. Ela talvez seja um dos argumentos mais fortes da alienação, da incapacidade de nos percebermos como agentes responsáveis pelo futuro e dignidade que tanto se prega ao discorrer sobre sustentabilidade, mas isso é um grave equívoco. Uma sociedade mundializada que não compreende em si o potencial da simplicidade e da mera existência compartilhada, é uma sociedade que jamais se perceberá parte de um todo ambiental, de uma rede de relações e coexistência ecossistêmica capaz de fornecer as maiores e potenciais condições para uma realidade justa e equilibrada entre o homem, os outros seres vivos e a Terra.

A idiotice como percebemos nossas vidas, a estrutura na qual elas estão inseridas e que inibe o questionamento, o espanto que leva ao encanto sobre o mundo, funciona como uma pancada que provoca uma fratura: além de quebrar e romper com um alicerce fundamental, pode incapacitar a recuperação e resiliência e, assim, tornar verdadeira a máxima de que a felicidade só é possível quando observada pelo olhar do capital, do acumulo, da rotina estressante e cansativa e, acima de tudo, pela lógica alienante e sufocante de modos de vidas padronizados, que podem ser comprados facilmente pelo cartão de crédito.

De cunho ético, fica a reflexão constante sobre: O que sou? O que quero? Eu devo? Eu posso? O resultado da síntese dialética entre essas questões certamente conduzirá a um pensar sobre o eu e o si mesmo; o eu e o todo; somado a isso, será possível notar o quanto se é idiota, num caminho de assoberbação e fuga de tudo o que pode ser, de fato, uma construção real de satisfação ética e moral, de felicidade orgânica e existencial. O afastamento do pensamento coletivo e colaborativo é, sem dúvidas, uma das maiores perdas que a humanidade teve em toda a sua curta existência.

 


DELTON MENDES FRANCELINO

DIRETOR INTERNACIONAL DO INSTITUTO CURUPIRA (MG, SP E EUA)

COORDENADORCIENTÍFICO DO SOPHIA: NÚCLEO DEPESQUISAEMECOLOGIAHOLÍSTICA

PESQUISADOR EM CIÊNCIAS AMBIENTAIS E ECOCULTURAIS

PALESTRANTE E PROFESSOR: MEIOAMBIENTE/ECOCULTURA/PERMACULTURA/ECOEDUCAÇÃO

CONTATO: CEL/+WHATSAPP:(32) 9 8451 9914


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