A desigualdade social e as injustiças históricas

Artigo do ambientalista Delton Mendes nos faz pensar sobre a complexidade da desigualdade social no Brasil. Leia Mais... 

Foto: Divulgação

Muitas pessoas defendem que a desigualdade social no Brasil, e até no mundo, não existe mais. Outras, argumentam insensatamente que todas as etnias humanas (não é mais interessante usar o termo “raças”, já que a humanidade é uma única espécie) têm acesso igual a direitos elementares, como a alimentação, a educação e à saúde. Mas, será mesmo que isso é verdade?

Pesquisas recentes têm mostrado que, embora o Brasil tenha diminuído nos últimos 20 anos a desigualdade social, ela ainda é assustadora. Milhões de pessoas em nosso país ainda passam fome diária. Bilhões, em todo o mundo. Somente em cidades do Maranhão, 1 em cada 5 pessoas está em situação de miséria. Não há mais dúvidas de que esse é um processo histórico, construído sob os pilares da colonização a que nosso país foi exposto, além dos processos relacionados à escravidão, segregação étnica e potencialização de poderes econômicos ainda hoje hegemônicos.

Você já parou para pensar que grande parte das grandes fazendas hoje existentes são heranças de séculos atrás? Quem herdou essas terras e como elas foram “conquistadas” por seus proprietários há tempos? Hoje, significativa parte dos grandes empresários brasileiros, também herdaram bens que foram construídos há muito tempo, alguns dos quais relacionados à expansão portuguesa Brasil adentro, entre os séculos XVII e XVIII, ou à industrialização recente, nos séculos XIX e XX. Pensando nisso, é justa a distribuição de renda no Brasil, e também de território, sabendo-se que índios, negros, por exemplo, foram mortos e escravizados para que esses bens, hoje, pertençam a descendentes de seus algozes?

A discussão sobre a desigualdade social é complexa e precisa ser cada vez mais mitigada. É papel do Estado propor ações que diminuam esse estado de calamidade humana, de maneira a dar dignidade existencial para todos os indivíduos de nossa espécie, em suas liberdades de escolha e acesso à Constituição, raramente praticada efetivamente.

Texto: Delton Mendes Francelino – Diretor Internacional do Instituto Curupira, pesquisador em Ciências Ambientais e Culturais, Urbanismo e Sustentabilidade, Gestão e Planejamento de Áreas Naturais


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