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Do que se pensa e constrói junto: mudando a realidade através da coletividade

Do fim do Apartheid à luta contra a ditadura militar no Brasil, as maiores transformações de realidade já obtidas em toda a história da humanidade só existiram através de ações desenvolvidas coletivamente, lutadas e construídas pelo pensar, estruturar e agir conjunto. LEIA MAIS...

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Do que se pensa e constrói junto: mudando a realidade através da coletividade

Primeiro semestre de 2005. Durante uma aula, ainda na escola, recordo-me de uma frase negritada no livro de geografia: “fazer a sua parte é o mais fundamental fator para a sustentabilidade e preservação do meio ambiente.” Não obstante o conteúdo disciplinar, desde então me questiono sobre a essência dessa frase, tão disseminada desde a década de 90 e que, uma vez difundida nos mais diversos níveis de afetabilidade midiática, educacional e social, engendrou práticas e políticas públicas em prol do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável nos últimos anos em todo o mundo. No entanto, essa frase, que virou jargão ambiental, muito me preocupa. Preocupa na medida em que excluímos o fator coletivo da prática de luta e defesa ambiental. Preocupa na medida em que deixamos de considerar a necessidade urgente de ações coletivas que possam elucidar, com potência e dinamismo, consistentes projetos locais, regionais e globais que afetem diretamente o quadro ambiental, independente de sua abrangência. Há dois anos, quando lecionava educação ambiental no Instituto Curupira, um aluno de 12 anos pediu a palavra e afirmou: “(...) em minha casa eu faço minha parte: não jogo lixo no chão e não fico mais de 10 minutos no banho. Mas na rua, fora de casa, eu não faço a mesma coisa. Acho que já faço muito fazendo a minha parte em casa”. O discurso do garoto revela muito mais que o posicionamento crítico de um pré-adolescente de 12 anos. Revela uma orientação discursiva construída em ambiente escolar, e possivelmente também domiciliar (infelizmente calcada na mídia televisiva), que se arquiteta através da realidade ideológica socialmente solidificada de que as ações particulares são mais relevantes que as ações coletivas. Revela como nossa educação, padronizada pelo Estado, que por sua vez atende a demandas de perfil e cunho industriais, ainda em formatos dos séculos passados, tem uma orientação de formação cultural competitiva, excludente e raramente focada no fortalecimento de vínculos sociais e afetivos de fundamental valor para as soluções coletivas que o mundo precisa. Somos ensinados, orientados e construídos, desde a infância, a arcarmos com responsabilidades particulares; somos doutrinados a entender o futuro como uma batalha campal particular, em busca do sucesso profissional, familiar e previdenciário: somos estruturados para competir por nós mesmos e impelidos pela sede capitalista excessiva de sucesso através do capital financeiro, desconsiderando outros capitais vitais. Somos muito pouco construídos pela essência do afeto coletivo, em que a preocupação pela construção comum, compartilhada, é um objetivo maior, um elo fundamental para a realização particular e social. Ao contrário do que somos “programados” a pensar e realizar, ser coletivo é um valor ético muito maior que qualquer busca pessoal. Ser coletivo significa trabalhar junto, atuar de forma honesta e recíproca em sua família, comunidade e país. Cada um de nós deve fazer a sua parte sim, claro, mas não devemos de forma alguma permitir que essa filosofia rasa e superficial nos esconda a verdadeira essência de qualquer transformação do mundo: objetivos específicos de mudança somente podem ser alcançados a partir da junção de ações coletivas. Do fim do Apartheid à luta contra a ditadura militar no Brasil, as maiores transformações de realidade já obtidas em toda a história da humanidade só existiram através de ações desenvolvidas coletivamente, lutadas e construídas pelo pensar, estruturar e agir conjunto. Pelo mundo humano e pelo planeta, é urgente a necessidade de mudança da forma de olhar o mundo por nós, humanos. Nossas escolas e esferas públicas de poder carecem de ações que promovam o desenvolvimento do pensar coletivo. Sucumbem em ideologia cada vez que preconizam o conhecimento sistemático em detrimento do conhecimento puro e comum que somente pode ser atingido através de práticas grupais e coletivas, que preconizem o planejamento básico de ações conjuntas e coletivas em si. No dia em que aprendermos a valorizar os ganhos comuns, obtidos pela força coletiva, e não somente os ganhos individuais, poderemos vislumbrar reais possibilidades de menos injustiça e desnivelamento social e ambiental em todo o planeta. Será o surgimento de uma nova era humana, em que o respeito e amor recíprocos prevalecerão, na ciência, educação e política, e a sustentabilidade deixará de ser um objetivo para ser uma realidade inquestionável.


 

Delton Mendes Francelino Diretor Presidente e Professor Responsável do Instituto Curupira - Barbacena, MG

 

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