Minas vive colapso na saúde: Macro Centro-Sul tem quase 90% dos leitos ocupados

Ocupação das UTIs é igual ou maior que 90% em quatro macrorregiões de saúde. No Sul e no Oeste, pacientes entram em fila de espera por leitos

Com 93,24% de ocupação das unidades de terapia intensiva (UTI) exclusivas para COVID-19, a macrorregião Oeste está em colapso há três meses. A situação só não é pior do que a registrada pela regional Sul, onde a taxa de ocupação de leitos é de 94,62%. O Vale do Aço mantém o menor índice, 54,67%. Os dados foram compilados na tarde de ontem do painel Coronavírus da Secretaria de Estado de Saúde (SES). Balanço divulgado pela pasta ontem confirma um total de 43.154 mortes e 1.684.962 casos da doença provocada pelo novo coronavírus no estado.

Minas Gerais está dividida em 14 macrorregiões. A Leste Sul está com 91,46% de ocupação nas UTIs. Em seguida, aparecem: Triângulo Sul (90%), Centro-Sul (87,40%), Centro (85,38%), Noroeste (81,18%), Nordeste (79,10%), Sudeste (69,66%), Jequitinhonha (68,33%), Norte (66,50%), Leste (64,86%) e Triângulo Norte (63,86%). A macrorregião Oeste praticamente dobrou o número de leitos de CTI desde o início da pandemia. Mas ainda está longe do ideal. Com 199 vagas, 36 pacientes aguardavam até domingo para ser transferidos. Três microrregiões (Bom Despacho, Itaúna e Lagoa da Prata/Santo Antônio do Monte) estão com 100% dos leitos ocupados. 

Os dados indicam um sistema em colapso. “Estamos mantendo uma estabilidade, mas uma estabilidade no colapso”, confirmou o superintendente da regional Oeste, Júlio Barata. Mesmo com fila de espera, não há projeção de novos leitos. “Atingimos o limite de leitos”, explicou. Quando há espaço físico em hospitais já cadastrados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o estado esbarra na falta de equipamentos ou de equipes suficientes. “A gente está fazendo um esforço para abrir leitos e outro para manter o leito aberto”, destacou Barata. Em alguns casos, as unidades hospitalares pedem o encerramento de leitos. “Tem muitos hospitais que estão falando: ‘Júlio, eu vou fechar leitos. Não tenho mais equipe suficiente para manter aberto.' É o que temos hoje. Um cenário de guerra”, descreveu.

A taxa de internação hospitalar aumenta no avanço da doença. Se no ano passado falava-se em ocupação de 80%, naquela época, o índice representava uma proporção menor de leitos. “Hoje, temos 115% de ocupação depois de ter aumentado tudo o que eu dei conta, e ainda assim não está sendo suficiente porque a quantidade de casos está gigantesca”, disse. Uma discussão iniciada ainda no começo deste ano é a abertura de leitos emergenciais no Hospital Regional, em Divinópolis. As obras estão paradas há cinco anos, mas prefeitos têm pressionado o governo a usar as alas mais avançadas para montar um hospital de campanha. 

Mesmo já tendo declarado que é interesse do estado abrir as novas vagas no local, o superintendente deixa claro que, por ora, é inviável. “Hoje, 14 de junho, não consigo abrir um leito lá. Para eu abrir leitos preciso terminar algumas obras, colocar equipamentos, colocar equipes lá dentro. Isso é possível de ser feito, mas estamos parados ainda na obra. Ele não tem infraestrutura básica”, argumentou. A Prefeitura de Divinópolis ainda vai contratar a empresa de engenharia para desenvolver o projeto. Mesmo que avance, não há uma projeção de quanto tempo seria gasto para concluir as obras, conseguir equipar e formar equipes. Gargalos enfrentados até mesmo por hospitais já estruturados. Enquanto isso, as projeções da SES são de um cenário epidemiológico ainda mais desolador. “Vamos ter mais pessoas doentes e, em consequência, mais internações, mais óbitos e uma piora assistencial”, previu. Isso significa que a tendência é o número de pacientes à espera de leitos de CTI COVID aumentar.

Mesmo com indicadores negativos, Barata não arrisca projetar uma nova onda roxa. A decisão, segundo ele, parte diretamente do governador Romeu Zema (Novo). Entretanto, ele alerta para a necessidade de seguir as normas sanitárias. “Nem o básico a população está fazendo, e o que é? Não participar de uma festa com 250 pessoas”, pontuou, referindo-se a dois eventos encerrados em Araújos e Itaúna no fim de semana.

COBRANÇAS A prospecção de piora e a falta de projeção de mais leitos tem preocupado os prefeitos, principalmente os de cidades menores que dependem daquelas classificadas como referências. “Nós, municípios, temos feito um enorme esforço para sanar as dificuldades. Itapecerica não é referência e a prefeitura e a Santa Casa se uniram para acolher os pacientes”, explicou o prefeito de Itapecerica e presidente da Associação dos Municípios do Vale do Itapecerica (Amvi), Wirley Reis. Hoje (ontem), os leitos estão vagos na Santa Casa de Itapecerica, mas na semana passada todos estavam ocupados e com alguns pacientes em estado grave. Um deles, intubado, conseguiu transferência no sábado para uma unidade de alta complexidade. O município é referenciado a Divinópolis. A microrregião é a que aparece em melhor condições, com 64,29% de ocupação no CTI. Para Têko, como é conhecido o prefeito, é necessário mais apoio aos municípios e abertura de leitos, como no Hospital Regional. “Muito recurso financeiro e humano, mas chega uma hora em que o município não caminha sozinho. Quando é para transferir, preciso da ajuda”, cobrou. Ele ainda pede agilidade no avanço da vacinação.


*Amanda Quintiliano, especial para o EM

 


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