@Exposed | Movimento nas redes sociais reúne relatos de garotas que teriam sido vítimas de assediadores em Barbacena

Movimento que já chegou a várias outras cidades recebe relatos de garotas que teriam sido molestadas por assediadores. Seguidoras do movimento dizem existir uma lista com cerca de 160 nomes de assediadores. SAIBA +

 

Depois de uma campanha contra violência sexual e psicológica sofrida por jovens mulheres ganhar força em todo o país, uma corrente no mesmo formato chegou a Barbacena. Desde quinta-feira (21), o Twitter vem sendo mobilizado com relatos de meninas e mulheres expondo casos de violência e abusos físicos e psicológicos que sofreram em diversos momentos da vida. 

A repercussão da ação fez com que muitas mulheres percebessem que não eram as únicas a sofrerem, potencializando novas participações e multiplicando as vozes. Isso resultou em mais de mil histórias relatadas, além de mensagens de solidariedade e apoio. Além de Barbacena, cidades como Belo Horizonte, São João del Rei, Campinas, Florianópolis também tiveram internautas expondo os próprios relatos nas redes sociais.

O movimento ganhou mais visibilidade a partir da divulgação de uma lista com o nome de supostos assediadores. A grande maioria das vítimas seria formada por mulheres menores de idade. A veracidade das acusações contra os supostos agressores, porém, é de difícil comprovação perante os meios legais. Sem provas e com a possibilidade de o agressor oprimir a vítima – com ameaças, por exemplo -, além da lentidão dos processos jurídicos no Brasil, aquele que denuncia fica vulnerável.

Caso de jovem que foi morar em Belo Horizonte

Com muita coragem e a vontade de mostrar para outras meninas que elas não estão sozinhas, uma universitária usou os stories do Instagram para contar seu caso.

Ela conheceu um jovem branco, rico e frequentador das melhores boates de Belo Horizonte. No seu primeiro encontro ele a drogou, levou-a para sua casa, dormiu com ela, machucou-a tanto que ela teve que passar por tratamento médico.

Ela não se lembra do que aconteceu entre o primeiro gole do vinho que o assediador  lhe ofereceu e o momento em que acordou na cama desse rapaz. Ela termina seu relato contando que ele nem se lembra que ela existe, mas ela se lembra dele quase todos os dias.

"Ele nem se lembra que eu existo, mas eu me lembro dele quase todos os dias."

Conversando com ela tivemos a curiosidade de entender porque só agora, já que o estupro aconteceu em 2015, ela resolveu falar sobre toda esta experiência dolorosa.

"O fato ocorreu em 2015, logo após meu pai falecer me mudei pra BH e aconteceu a agressão, depois disso voltei pra Barbacena para fazer acompanhamento médico e psicológico. Eu já estava com depressão por conta da forma trágica como meu pai morreu, e com o estupro piorou. Eu recebi a lista sobre os casos de Barbacena dias depois que tinha contado à minha mãe pela primeira vez sobre o caso. Na época eu não entendia o que tinha acontecido, e quando entendi, tampei meus olhos e qualquer pensamento que surgisse sobre isso eu me desligava dele. Fugi disso por muitos anos, até que comecei a ler mais sobre a força que uma vítima pode ter e criei coragem. Então, assim que que vi a tag #exposedbh acontecendo, resolvi contar meu caso, mas, mesmo assim, sem citar o agressor pois ainda tenho medo. A lista chegou até mim, apesar de ter um grupo me acusando de ter criado ou falando que eu que levantei a causa. Eu expus no Twitter o meu relato que tomou proporções grandes e as meninas de Barbacena se sentiram a vontade em também se expor. O propósito da lista é esse, mas infelizmente, foi passando para alguns homens e eles, na brincadeira, colocaram nomes de amigos os acusando injustamente. Infelizmente a justiça custa a nos ouvir e sempre saímos culpadas, então muitas meninas preferiram contar seus relatos e expor de forma anônima. E isso se tornou importante a partir da grande repercussão", conta a universitária.

"... Ainda tenho medo."

A LISTA

Desde o momento que o BarbacenaMais ficou sabendo a respeito do movimento @ExposedBarbacena começamos a fazer contato com pessoas que dizem ter tido acesso à lista de assediadores de Barbacena.

"Até ontem já havia cerca de 160 nomes de homens que em algum momento de suas vidas abusou de uma garota. Por segurança das meninas, já que o vazamento da lista poderia trazer consequências até judiciais ou que se tornassem alvos de seus algozes, decidimos continuar a ouvir os relatos destas vítimas mas tentaremos não deixar vazar mais a lista com os nomes. Precisamos dar assistência e resguardar as vítimas", conta uma moça que diz que os casos são muito tristes, e que se envolveu neste movimento por sororidade com a dor destas mulheres. "Existem relatos de assédio de padrasto às colegas de sua enteada, são casos muito duros, a maioria, nojentos' - conta ela.

Apesar de relatos da existência de tal lista, o BarbacenaMais não teve acesso aos nomes da citada lista que dizem existir.

RECORTES DE DIÁLOGOS ENTRE AS VÍTIMAS

Internet tem outras campanhas para denúncias de abuso

Ações contra o assédio sexual costumam ser lançadas pelo governo apenas em períodos festivos, como Carnaval. Campanhas como “Respeita As Minas”“Não é Não!” e “Eles por Elas” são algumas das de maior importância no cenário nacional. Elas sempre são usadas com o intuito de levantar bandeiras e abordar assuntos que são tratados como tabus pela sociedade. 

Para quem se sente coagido, a campanha é, em partes, um refúgio. “Eu acho que é muito importante este tipo de campanha para mostrar que as mulheres não estão sozinhas. Para mim, foi muito significativo, porque percebi que eu não era a única que já tinha passado por abusos sexuais ou psicológicos”, relatou uma vítima que prefere não se identificar.

Para a moça, é necessário ter mais canais de acesso e discussão sobre os casos. “Da mesma maneira eu não consigo expor a minha história, porque eu tenho muito medo da maneira com que as pessoas possam vir a lidar com isso. A exposição, as críticas e o descrédito ainda são muito presentes em uma sociedade onde a mulher é sempre apontada como a culpada”.

Para a estudante de Direito Nahomi Helena, é fundamental que haja ajuda a essas mulheres e que seja criada uma rede de apoio. “É preciso conscientizá-las para que passem isso para frente. Também precisamos gerar o empoderamento que dá essa liberdade de elas poderem criar a coragem de falar, buscando ajuda e entendendo que não estão sozinhas. Principalmente, entendendo que não é culpa delas”.

Para ela, a parte mais complicada e importante é unir provas contra o agressor. “No momento [em que se testemunha uma agressão], você não pensa em nada, a não ser em ajudar a vítima. Mas é fundamental que, enquanto você ajudar, peça para outra pessoa fotografar e filmar. Qualquer prova pode ajudar essa vitima”. 

De acordo com a Lei n°13.718/2018, assédio sexual é crime. A pena para importunação sexual pode variar entre 1 e 5 anos, sendo aumentada em caso de agravantes. 

Para além do Brasil

O movimento #Metoo ganhou visibilidade, em 2017, quando a atriz Alyssa Milano publicou no Twitter um pedido para que todas as pessoas que já tinham sofrido assédio sexual aderissem à hashtag. A campanha ganhou força quando atrizes de Hollywood se uniram contra a cultura de assédio sexual no principal cenário do cinema mundial, viralizando em todo o planeta.  

Rede de Apoio 

Caso você saiba de alguém que sofre, denuncie em 180, ou sugira apoio. O site Mapa do Acolhimento tem dicas de como fazer essa orientação.  

 


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